Hoje
é dia do Dr. Tom Catena que aos 53 anos se formou em Medicina graças a uma
bolsa da Marinha americana, não tem consultório chique para impressionar aos
clientes, e trabalha nas montanhas Nuba, no Sudão, driblando a caça das Forças
Armadas sudanesas que sobrevoam a área bombardeando alvos inimigos. Originário
da cidade de Amsterdam, Estado de Nova York, chegou às montanhas Nuba há nove
anos, depois de seis no Quênia, escolhido por ser um lugar "onde havia uma
imensa necessidade de médicos".
Que
vida!!!!... A etnia Nuba que atende, vive em meio ao fogo cruzado entre as
forças governamentais e a guerrilha Frente Revolucionária do Sudão desde 2011. É
o único missionário americano médico que atende uma população de 750 mil
pessoas no local gratuitamente e independente religião ou implicação no
conflito armado,. Os Nuba se dividem entre católicos, muçulmanos e uns poucos
animistas.
"A
dor mais excruciante que você pode imaginar é ver seus pacientes morrerem. A
parte mais difícil do meu trabalho. Você sente que toda a tristeza e dor do
mundo pesam sobre a tua cabeça, apertam o teu peito e você não consegue nem
respirar. O impacto psicológico é tão grande que a dor se torna física",
afirma em entrevista à BBC Brasil.
Catena
atende no hospital Mother of Mercy, 400 pacientes em um só dia: "Você vai
à pediatria e encontra uma criança com queimaduras de terceiro grau em 60% do
corpo, causadas por uma bomba incendiária, e morre em seus braços. Na área
feminina, uma mulher com câncer de mama em fase terminal morre ao lado de outra
paciente a quem você teve que amputar uma perna por ter pisado em uma mina
terrestre. Na maternidade uma grávida com toxemia e pré-eclâmpsia tem uma
convulsão e morre ao dar à luz. Na área masculina um dos soldados que você
operou um dia antes morre. Você tenta explicar à família o que aconteceu. Como????...
Na tenda que instalamos para tratar os pacientes de uma epidemia de sarampo,
você vê uma mãe gritando, rolando no chão, chorando porque seu bebê acaba de
morrer de sarampo."
“E
como desistir quando um garoto sorrindo se aproxima com uma bola e me chama
para brincar ou ouço o agradecimento de uma mulher que carrega nos braços o
filho amputado???..... São coisas simples que me fazem resistir: 'doutor, por
favor, não nos abandone'. Aí você recobra os sentidos e percebe que é a única
esperança para essas pessoas que foram traumatizadas, oprimidas por séculos. É
realmente a minha fé que me move. Sempre fui muito inspirado por São Francisco
de Assis. Queria viver uma vida simples, dedicada a ajudar", conta ele
católico fervoroso.
Hoje
ele conta com uma equipe de 60 enfermeiros locais, entre eles dois anestesistas
e alguns menores de idade "com formação ainda insuficiente". Faltam
equipamentos, a eletricidade depende de um gerador e de painéis solares, a água
vem de poços artesanais, e os medicamentos são adquiridos em Uganda ou Quênia e
levados ao hospital clandestinamente, complicadas e caras.
"Escuto
os aviões circulando sobre nossas cabeças e penso: 'será que não sabem que há
gente aqui embaixo?“. Há uma diferença de valor. Há um grupo que pensa que sua
vida é mais importante que a de outros. Uma estratégia nojenta. Quando você
bombardeia um hospital desmoraliza as pessoas. Não se trata só de vidas
perdidas, estruturas destruídas. Os efeitos psicológicos são devastadores. É
uma guerra psicológica contra a população."
Omar
al-Bashir é buscado desde 2009 pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), que o
acusa de crimes de guerra e crimes contra a humanidade na região sudanesa de
Darfur, palco de guerra civil que levou à divisão do país com a criação do
Sudão do Sul, em 2005.
Há
pouco mais de um ano, Catena se casou com uma nuba e deseja ter filhos em
breve, algo "muito importante" na cultura de sua esposa.
"Estamos
treinando muita gente. Há dez pessoas em escola de enfermagem, seis em clínica
geral. Espero e rezo para que esses caras voltem e venham com disposição e
dedicação, para que possamos realmente começar a melhorar a atenção médica na
região, com a população nuba treinando outros nuba. O objetivo é que os locais
passem a administrar o hospital", explica.
O
trabalho de Catena foi reconhecido neste ano com o Prêmio Aurora pelo Despertar
Humanitário, entregue em 28 de maio em Erevan (Armênia).




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