Aos 86 anos, Carlos Heitor Cony faz uma
revisão amarga e irônica da vida em entrevista para Ana Branco no Jornal O
Globo. Li, reli, voltei a ler tudo sobre o autor mesmo conhecendo todos os seus
livros. E as vésperas de lançar ‘JK e a ditadura’, critica o político mineiro,
compara a ABL a um ‘jardim de infância ao avesso’ e se diz cansado da ficção
Com as pernas enfraquecidas pelo
câncer, Cony acaba de ir a Nova York. Um câncer linfático crônico, considerado
terminal há 11 anos, afetou a força de suas pernas. Só passeios modestos,
dentro de casa, com fisioterapeutas. Na rua, na condição de cadeirante, mas. Cony,
86 viaja para palestras, vai a Nova York e visita o Marco Zero. Fumante de
quatro charutos por dia, lê, escreve suas crônicas para a "Folha de S.
Paulo" e participa de debates matinais com Artur Xexéo na CBN.
Há um ano, não vai à Academia
Brasileira de Letras (ABL) e não pretende voltar à ficção, como os fãs esperam.
Espécie de autobiografia em terceira
pessoa, "JK e a ditadura": “Deveria ser o terceiro volume de sua
autobiografia, mas ele morreu. Tenho restrições a Juscelino, em que pese o
carinho e a admiração por sua obra. Ele se vendeu como democrata irredutível,
mas pressionava o Congresso. Quando pediu licença para processar Carlos Lacerda
por vazar informações do Itamaraty, jogou pesado para cima da Câmara na
intenção de cassar o adversário. Não conseguiu. Mas comprou voto, constrangeu a
imprensa, o diabo a quatro, como todo mundo faz, na base do fisiologismo. Errou
feio ao apoiar Humberto Castelo Branco em troca da promessa de respeitar o
pleito de 1965, o que não aconteceu. A jogada de mestre teria sido renunciar à
candidatura em favor do (general Eurico Gaspar) Dutra, um pessedista de 90 anos
que estava na lista dos preferidos dos militares e lhe era leal. Dutra ia
corrigir os rumos e acalmar os radicais. Uma vez ele me perguntou onde foi que
pegou a curva errada, e eu disse isso.”....
“JK mentia sobre a idade. Dizia, no
primeiro volume das memórias, que nasceu em Diamantina em 1902. Tenho a
certidão de nascimento: o ano correto é 1900. O Roberto Muggiati foi demitido
por ter publicado na "Manchete" a idade certa. Ficou "exilado"
atrás de uma coluna da redação. Dois anos depois, virou diretor da revista.....
A questão de JK sempre foi mesmo a indústria. Getúlio Vargas fez legislação
trabalhista sem um tiro e a sociedade, inclusive o empresariado, aceitou. Mas Getúlio
não menciona a questão da terra. Se mexesse na terra, seria deposto. JK também
foi avesso a essa questão. Mas, com o que fez, transformou a sociedade
brasileira e a levou a outro patamar.”
A segunda parte do livro, reedita
trechos de "O Anjo da Morte", reforçando a tese de assassinato de
Juscelino: “Os indícios são todos nesse sentido. Guilherme Romano, braço
direito de Golbery (do Couto e Silva), foi o primeiro a aparecer no local. O
pouso onde ele parou pertencia a militares e JK vivia sendo seguido. A notícia
da morte por acidente correu dias antes. E, em telegrama ao general (João
Batista) Figueiredo, o chefe da Dina, o SNI chileno, equipara Letelier,
assassinado pela CIA, a JK, como "um problema para o Brasil", num
tempo em que o presidente Jimmy Carter ouviu de (Ernesto) Geisel que, antes da
redemocratização, ainda estava em vias uma "limpeza de terreno". Sei
que indícios não são provas, embora tenha ouvido o (ex-ministro do STF Cezar)
Peluso dizer que existe a "prova indicial". Miro Teixeira chegou a
criar uma comissão para apurar as circunstâncias. Todos os depoentes afirmaram
isso. O último foi Miguel Arraes, grande articulador da resistência à Operação
Condor, que assim se pronunciou: "JK foi assassinado."
Em 1968, Cony foi preso na mesma leva
que deteve JK. Noite de 3 de dezembro, até depois do carnaval. Três meses. “Fui
sequestrado, ouvi que naquela noite iam fuzilar JK. Incomunicável, acreditei,
aquele tempo todo, que havia um paredão. Não fui torturado, mas em muitas
noites vomitei ao ouvir berros e pancadas das outras celas. Fiquei numa cela
miserável, com um cano de água, que usava para escovar os dentes, e um vaso
sanitário. Esta foi a segunda prisão. No total, foram seis. Os militares ainda
eram educados. Invoquei a convenção de Genebra e a comida melhorou, ganhei
banho de sol e lençóis, e, no Natal, um coronel nos mandou peru, vinho, farofa
e castanhas, da casa do comandante.”
“Tenho um câncer linfático e estou em
estado terminal há 11 anos. É o mesmo câncer da Dilma e do (Reynaldo)
Gianecchini. Não perdi o cabelo, mas o tratamento enfraqueceu minhas pernas......
“Sou um anarquista inofensivo. Na
Academia entrei com 74 anos, idade com que morreu o JK. Desde 1964 já me haviam
convidado. A Academia é um ambiente de cordialidade. Resumindo, porém, eu diria
que é uma espécie de jardim de infância às avessas. No jardim de infância você
não tem passado mas um futuro o espera, com relações novas e amigos vindouros.
Na academia, não temos futuro. Temos todos um passado, se é que temos, bom,
brilhante ou medíocre, mas 90% dos que lá estão não têm mais nada para fazer na
vida. O futuro é o mausoléu.”..... “Não quero velório. Nem quero ir para o
mausoléu da Academia. Serei cremado. Toda a liturgia da morte hoje é uma
contrafação, fria, impessoal. Já conquistei o que queria. Só me restam o Nobel
e a morte. Como o Nobel não virá...

Nenhum comentário:
Postar um comentário