NÃO IMAGINO MINHA VIDA SEM CHOPIN
Eu e Rubens Jardim, subscrevemos a recente afirmação de Nelson Freire, sem titubear. Afinal, eu tambem convivo com a música de Chopin desde a infância. Nosso propósito desse comentário não é mostrar a familiaridade com os grandes ou pequenos compositores. O objetivo é outro: tentar desconstruir os preconceitos que cercam boa parte dos criadores que conseguem a preferência do público. E Chopin, compositor romântico cujo bicentenário de morte é comemorado neste ano, é um deles. Tchaikovsky é outro. Mas hoje, vamos nos ater ao autor das célebres polonaises, das baladas, dos scherzos, dos estudos, dos prelúdios e noturnos.
Contrariando parcela da crítica e de estudiosos, o pianista Nelson Freire, considerado um dos melhores da atualidade, disse o seguinte: “O fato é que com sua música tudo soa muito natural, espontâneo, os sons vão direto ao coração das pessoas. Mas para o pianista, as obras exigem um trabalho sem igual, entrega completa e muito tempo de dedicação.” Outra artista, amiga de Freire, a pianista argentina Martha Argerich, corrobora com as afirmações do brasileiro. E vai mais longe ainda: “Chopin é o compositor mais difícil”
Afirmações que, vindo de quem vem, estabelecem um novo marco no entendimento do compositor. Deixo de lado opiniões que buscam classificar a música de Chopin como música menor, música fácil-- música de salão. Sem esquecer das preconceituosas referências ao seu “sentimentalismo melancólico”, “sua veemência passional” ou seu “romantismo exagerado”.
De modo geral, o mesmo fenômeno ocorre em outros áreas culturais. Na literatura, são inúmeros os casos. Jorge Amado, escritor que obteve grande sucesso no Brasil e em outros países, acabou sendo fustigado por esse preconceito. Outra vítima das elites acadêmicas foi José Mauro de Vasconcelos, autor de um livro que fez enorme sucesso nos anos 70: Meu Pé de Laranja Lima onde protagonizei a Jandira na Band e o personagem esta vivo ate hoje. Érico Veríssimo, foi inteiramente desprezado pela universidade e pelos intelectuais acadêmicos. Outra vítima é Paulo Coelho, que ocupa vaga na estante dos autores menores e populares.
Segundo alguns observadores, no Brasil, é a universidade que canoniza, que diz o que "é" e o que "não é" literatura. Mas esses processos de canonização são, na verdade, muito discutíveis. Até porque essas tentativas de invalidação coincidem sempre com autores ou obras que escapam à esfera do gosto e do poder dessas elites complicadas. E ganham, apesar delas e dos contumazes preconceitos, o gosto e a preferência popular. E isso parece ser imperdoável!
A celebração pelos 200 anos de nascimento do poeta do piano parece não ter limite e envolve todo o globo. Um festival atrás do outro, concertos, missas, mostras artísticas, literatura, uma onda frenética de comemorações que fará de 2010 um ano especial e inesquecível para a música. Já foram anunciadas duas mil celebrações artísticas, mil e duzentas das quais no seu país natal, a Polônia. Muitos outros países também se juntaram a este aniversário, entre os quais Portugal, Brasil, China, Itália, Reino Unido, França, Áustria e Noruega. Mas foi no primeiro dia de março, em Varsóvia, que a celebração oficial se iniciou com um Concerto de Gala no Stanislaw Moniuszko Auditorium (Teatro Nacional). Até o dia 7 de março, o pianista e maestro Daniel Barenboim, realizou recitais de Chopin em várias cidades da Europa. Também em março, do outro lado do mundo, no coração dos Emirados Árabes, ocorre o “2010 Abu Dhabi Festival”, que este ano celebrará o bicentenário do compositor, numa festa monumental com a participação de nomes como o maestro Krzysztof Penderecki, o pianista Yundi Li, o trompetista Wynton Marsalis, e até a London Symphony Orchestra conduzida por Sir Colin Davis.
Em maio estreia mundialmente o “Ballet Chopin,” coreografado por Patrice Bart para o Polish National Ballet. Em agosto é a vez do “65th Chopin Festival”, a ser realizado na localidade polaca de Duszniki-Zdrój, onde o compositor residiu a maior parte de sua vida criativa. Em outubro ocorre a final da 16ª. edição do “Frederyk Chopin International Piano Competition”. Também em março será reaberto oficialmente em Varsóvia o Fryderyk Chopin Museum, e no mesmo mês ocorrerá em Ontário o “Canadian Chopin Festival” dez dias de festa, música e até um concurso para piano (Third Canadian Chopin Competition).
Toque para mim Chopin que te escuto com minha alma!!!

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