Paulo José vai viver um portador de ParkinsonNa próxima novela de Manoel Carlos
Paulo José vai viver seu
próprio problema na novela Em Família, de Manoel Carlos que estreia em
janeiro, sob direção de Jayme Monjardim. Foi ele quem sugeriu ao autor algumas
situações "humilhantes" vividos por um portador de Parkinson. Paulo
José terá liberdade de improvisar à vontade. Em depoimento escrito recentemente
sobre a doença, Paulo diz que a Globo pagou os tratamentos mais caros. José
Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, o enviou para Nova York, assim que
soube do diagnóstico. Lembra da infância, entre Bagé e Lavras do Sul (RS), da
mãe de suas três filhas, Dina Sfat, das outras mulheres, do filho, e conclui:
"Acho que sempre estive com alguém. Sou passional, mas gosto de fingir que
não sou. Sinto ciúmes, mas finjo que não sinto. Se me perguntarem, nego
tudo".
Há 15 anos, soube também
que tinha enfisema pulmonar, mas ainda se permite fumar até cinco cigarros por
dia.
Dirigiu 10 peças de
teatro, participou de 19 filmes e 18 programas de TV, dirigiu mais de 200
comerciais e prepara a reedição de um livro que norteou o curso de direção e
atuação que criou na Globo, em 1988, e na Escuela Internacional de Cine Y
Televisión, de Cuba.
O Maneco procurou Paulo
e perguntou se importaria de ele me usar para falarmos do Parkinson, que seria
bom para a novela. E como eu tenho obrigação de fazer coisas pra televisão –
tenho contrato, a cada três anos tenho que fazer uma novela –, achei que essa
era uma boa ideia. E, coincidência, o Michael J. Fox está fazendo um programa
nos Estados Unidos, com grande sucesso, em que ele é protagonista, com todos os
problemas do Parkinson. A proposta é tratar o Parkinson com humor. Eu costumo
chamar de "Meu Parkinson de diversões", chamo mesmo, porque para
algumas pessoas, o Parkinson é um problema sério, impede de trabalhar, corta
atividades, dá a sensação de que o mundo acabou. Pra mim, não.
Não é letal, você não
morre de Parkinson, mas o Parkinson ajuda a te enfraquecer, vai minando os teus
alicerces. Eu, por exemplo, tenho uma voz muito fraca. Posso fazer esforço,
faço aulas de voz duas vezes por semana, faço exercício todos os dias. Eu,
estando descansado, a voz sai mais forte e mais articulada. Mas agora, por
exemplo, estou com dificuldade de falar. Tomei banho e fiz um relaxamento
preguiçoso, dá uma sonolência, os remédios são muito fortes, atacam muito o
sistema nervoso central. O problema do Parkinson é a ausência de dopamina. A
dopamina é euforizante, a droga da alegria. Se você não tem dopamina, fica
caído, sem humor. Se você olhar, o parkinsoniano tem cara de jogador de pôquer:
você não sabe o que ele está pensando. Puxa a carta, olha pra você sem nenhuma
reação, é um jogador de pôquer.
Sou otimista,
irremediavelmente. Eu tenho dificuldade em certas coisas. Dar entrevista, me
custa muito. Eu prefiro fazer por escrito. Estou escrevendo muito mais do que
falando e estou escrevendo bem. Estou passando tudo para um livro. É um
pot-pourri, uma mistura.
O meu personagem vai ser
bastante flexível. Conversando com o Maneco, sei que vão ter um cuidado
especial comigo.
Citei algumas situações,
o freezing, que causa um congelamento. O personagem entra no ônibus e trava na
porta. Em vez de entrar, não pode sair dali, há uma desconexão entre movimento
e vontade. Ele quer entrar, mas não consegue, e as pessoas reclamando,
"eh, eh". Tem a situação de assalto, em que o assaltante manda o
sujeito ficar quieto, parar de se mexer, e ele não consegue, fica tremendo. E o
cara se sente mais ameaçado pelo fato de não poder parar os movimentos –
"mas eu sou doente" –, e o assaltante não acredita. Tem situações do
episódicas do parkinsonismo, que ocorrem com algumas pessoas, como
incontinência urinária, que eu não tenho, mas tem gente que tem. São situações
humilhantes. Você vai ficando arredio, tem medo de muita gente. Mais de três
pessoas é multidão. Aqui em casa tem muito movimento, mas são pessoas que são
muito conhecidas, me respeitam, têm carinho por mim, isso é importante também. O Maneco
vai ‘maltratar’ Isso é inevitável. Para criar uma empatia do público com esse
personagem, ele me maltrata. O público sofre junto. Assim tem empatia. Se o
personagem for antipático, o público vai dizer "quero que se ferre, pode
sofrer". Eles (telespectadores) têm que ficar condoídos.
Estou interessado em
acompanhar a novela das 9 (onde sua filha Bel Kutner vive a enfermeira Joana).
Aliás, todo mundo na novela tem um lado podre. Mas tem os velhos – o Ary
Fontoura e a Nathália Timberg –, que são jovens.
O marca-passo: Há cinco
anos. Quando fiz Por Amor, ainda não tinha, mas eu usava os tremores a
favor do personagem, que era bêbado.
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